Carlo Pedersoli, imortalizado mundialmente sob o pseudônimo Bud Spencer, é uma das figuras mais singulares e multifacetadas da história do entretenimento europeu. Muito além dos icônicos filmes de Spaghetti Western e das comédias de ação que marcaram gerações, sua vida foi um roteiro épico que envolveu recordes olímpicos na natação, graduação em Direito, patentes de invenções, composição musical e a fundação de uma companhia aérea.
Você sabia que Bud Spencer viveu no Brasil?
Nascido no bairro de Santa Lucia, em Nápoles, Itália, em 31 de outubro de 1929, Carlo cresceu em uma família de industriais abastados. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua família mudou-se para Roma, onde ele iniciou seus estudos de destaque e demonstrou sua aptidão física inicial para a natação.
Em 1947, a família Pedersoli mudou-se para a América do Sul. Um detalhe fascinante e pouco conhecido é a sua conexão com o Brasil: Carlo trabalhou no consulado italiano em Recife, Pernambuco, por três anos. Ele aprendeu a falar português fluentemente, algo que ele carregaria com carinho pelo resto da vida. Trabalhou também em Buenos Aires, Argentina, como operário de linha de montagem, antes de retornar à Itália em 1949.
O Atleta de Elite e os Jogos Olímpicos
De volta a Roma, Carlo retomou sua paixão pelas piscinas e fez história. Com seu físico imponente (1,94m de altura), ele se tornou, em 1950, o primeiro nadador italiano a quebrar a barreira de um minuto nos 100 metros livres (completando em 59,5 segundos).
Sua carreira esportiva foi brilhante. Ele conquistou o campeonato italiano de natação em estilo livre e revezamento diversas vezes durante a década de 1950. Seu desempenho de elite o levou a representar a Itália em duas edições dos Jogos Olímpicos: Helsinque (1952) e Melbourne (1956), chegando às semifinais em ambas as ocasiões. Ele também foi um exímio jogador de polo aquático, ganhando o Campeonato Italiano em 1954 com o time da Lazio. Em 1957, aos 27 anos, decidiu encerrar sua carreira esportiva profissional.
Os Primeiros Passos na Arte e na Vida Pessoal
Apesar de ter feito pequenas figurações no cinema — a mais notável como um guarda do Império Romano no clássico Quo Vadis (1951) —, atuar não era o seu objetivo inicial. Carlo era um homem de mente inquieta. Formou-se em Direito e, após deixar a natação, viajou novamente para a América do Sul, trabalhando na construção da rodovia Pan-Americana na Venezuela.
Em 1960, casou-se com Maria Amato, filha do renomado produtor de cinema italiano Giuseppe Amato. O casal teve três filhos: Giuseppe (1961), Christine (1962) e Diamante (1972). Nos anos seguintes ao casamento, Carlo trabalhou compondo músicas para cantores pop italianos e dirigindo documentários para a rede de televisão estatal RAI.
O Nascimento da Lenda: Bud Spencer e Terence Hill
O ponto de virada definitivo aconteceu em 1967. O diretor Giuseppe Colizzi o convidou para o filme Deus Perdoa... Eu Não!. Os produtores exigiram que os atores italianos adotassem nomes americanos para que o filme tivesse apelo no mercado internacional. Carlo Pedersoli escolheu "Bud Spencer" — uma homenagem à sua cerveja favorita (Budweiser) e ao seu ator idolatrado (Spencer Tracy).
Foi neste set que ele conheceu o parceiro que mudaria sua vida: Mario Girotti, que adotou o nome de Terence Hill. A dupla fez um sucesso imediato. O contraste entre o gigante resmungão, que resolvia tudo com golpes de marreta com as mãos, e o parceiro magro, ágil e malandro, criou uma fórmula mágica.
Nos anos 1970 e 1980, eles reinaram absolutos nas bilheterias mundiais com filmes como Chamam-me Trinity (1970) e sua sequência Trinity Ainda é Meu Nome (1971), que quebrou todos os recordes de bilheteria na Itália. Juntos, fizeram 18 filmes, estabelecendo um estilo de "comédia de porrada" familiar, sem sangue, focada no humor pastelão, que se tornou um fenômeno global.
A Carreira Solo e a Série "Piedone"
Apesar da fama em dupla, Bud Spencer também teve uma carreira solo extremamente bem-sucedida. Ele estrelou a famosa tetralogia do Inspetor Rizzo (conhecido como Piedone ou "Pé Grande"), dirigida por Steno, que começou com Piedone, o Tira (1973). Spencer ajudou a escrever os roteiros e imprimiu no personagem seu próprio senso de moralidade e justiça, combatendo criminosos em Nápoles, Hong Kong, África e Egito.
Ele também atuou em filmes notáveis como O Soldado da Fortuna (1976) e Banana Joe (1982), cujo roteiro foi escrito pelo próprio Spencer sob o pseudônimo de Carlo Pedersoli.
O Homem da Renascença: Piloto, Inventor e Político
A curiosidade de Bud Spencer não tinha limites. Após atuar no filme Dá-lhe Duro, Trinity (1972), onde precisava voar, ele se apaixonou pela aviação. Obteve brevê para pilotar aviões a jato e helicópteros comerciais. Em 1984, essa paixão culminou na fundação de sua própria companhia aérea, a Mistral Air, dedicada inicialmente ao serviço postal e depois ao transporte de passageiros (a empresa foi posteriormente vendida aos correios italianos).
Além dos ares, Spencer registrou patentes de invenções em seu nome, incluindo uma fechadura de porta de três vias e uma bengala com cadeira embutida. Em 2005, aos 75 anos, tentou uma breve incursão na política, candidatando-se a conselheiro regional do Lácio pelo partido Forza Italia, mas não foi eleito.
Os Últimos Anos e o Legado Eterno
Nos últimos anos de sua vida, Bud Spencer dedicou-se a escrever suas memórias, publicando livros autobiográficos que se tornaram best-sellers na Europa, nos quais ele repetia frequentemente a frase que definia sua humildade: "Eu não sou um ator, sou um personagem".
Ele viveu seus últimos dias tranquilamente em Roma. Faleceu no dia 27 de junho de 2016, aos 86 anos. O anúncio de sua morte foi feito por seu filho Giuseppe, que declarou: "Papai voou pacificamente às 18h15. Ele não sofreu dor, tinha todos nós ao seu lado e sua última palavra foi 'Obrigado'".
Bud Spencer deixou uma marca indelével na cultura pop mundial. Ele provou que um homem pode viver mil vidas em uma só — campeão, intelectual, artista, empresário e pai de família — mas, acima de tudo, será eternamente lembrado como o herói de coração gigante que ensinou o mundo a sorrir entre um soco cinematográfico e outro.






0 Comentários